terça-feira, 24 de junho de 2014

PENTIMENTO


Sua imagem estará sangrando
Seu nome será apenas uma mancha
Seu sorriso será lua minguando
Enquanto a lembrança se desmancha
Sua voz estará apenas em meu pensamento
Seu retrato estará escondido por pentimento

Sua imagem estará desbotando
Seu nome escorrendo com o verniz
Tua voz será uma canção chorando
Que escrevi na calçada com giz
Seu toque foi meu arrebatamento
Seu retrato estará escondido em pentimento

O minueto que compusestes com minha tristeza
É agora a batida lenta de meu coração
Sepultada na tinta está aquela certeza
Pra mim só resta a inspiração
Fecho os olhos para ouvir a solidão da melodia
A dor de cada nota ecoa do olhar que ardia

E agora, nada ficou?!
Passo por você de cabeça baixa
Para que não veja em meus olhos a lembranças que restou
Todos os meus poemas escondo numa caixa
Pintei nossa imagem por cima em arrependimento

Mas esta se revela aos poucos em pentimento

domingo, 22 de junho de 2014

ESPELHO



Não sou espelho
Não reflito seu olhar
Quem estruturou seu aparelho
Foi a ausência da imagem especular

Estou cansada
De sempre ser considerada
O reflexo invertido
De seu coração pervertido

Resolvi na sua ausência
Também me ausentar
Não sou registro imagético
Para te completar

Muito menos estou em partes
Nem sou obra de arte
Para conseguir amarrar
Seu ego a se desintegrar

Do teu amor nem quero ser dona
Não sou risperidona
Para você me tomar
Com um beijo me inalar

Não sou espelho
Para você se projetar
Não ficarei de joelhos
Para você me dicotomizar

Sou mulher
Você não consegue lidar
Nem se quiser

Com o meu olhar

Carla Berti Bonesso

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Alguém



Vejo alguns culpando a cultura, a criação, aos filmes de Hollywood pelo desencontro amoroso... Eu culpo o Depeche Mode! Por ter feito uma canção tão bela sobre um amor idealizado que nunca existirá na realidade...
Será que não existe mesmo? Se todos dizemos que procuramos amor verdadeiro, sincero, onde a cumplicidade, o diálogo, a compreensão e o compromisso imperam, o que está errado com este discurso? Porque não conseguimos nos relacionar com o outro em sua totalidade? As pessoas compartimentalizam as relações, e culpam somente ao outro pelos seus fracassos. Devemos culpar a nós mesmos, os nossos sintomas, que nos assaltam no momento oportuno e inoportuno com um timing tão perfeito como as piadas de Jim Carrey transformando nossa vida num filme amador, de baixo orçamento, com um péssimo diretor - o nosso Super Ego- no gênero da comédia/dramática.
Mas talvez todo o sofrimento valha a pena, por aqueles raros momentos onde os olhares se encontraram e os corpos falaram...talvez querer esse alguém da música do Depeche é querer do outro algo que nem agente mesmo tenha para dar. Se pergunte sempre: o que eu quero do outro é coerente com o que eu tenho a oferecer? Existe a possibilidade de comunicação entre eu e aquela pessoa que desejo. Keep it real....
http://www.youtube.com/watch?v=chXF4MgbWzE