quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sonhos e Realidade

          "Noite passada eu tive um sonho terrível. Sonhei que eu era o chefe dos carrascos e tinha que escolher quem ia morrer e quem ia viver. Eu tinha que executar os condenados. Acordei suando!". O compositor e músico Robert Smith, o front man da banda inglesa The Cure, conta em uma entrevista o seu pesadelo. Quando alcançamos o estado alfa do sono adentramos o mundo dos sonhos e experimentamos as mais diversas sensações. Nossos medos, fantasias, desejos, vivências e traumas se revelam como em um processo catártico. O mundo onírico é de domínio do inconsciente, é o retorno do recalcado, que se revela como um sintoma que precisa ser interpretado e elaborado para perder sua força, amenizar o seu gozo. Até nosso  passado mais distante vem a tona quando conseguimos nos lembrar de nossos sonhos, isto é, quando a barreira do recalque deixa, quando as resistências se rendem. 
           Sempre há um material rico aguardando a boa interpretação de um analista estudioso, supervisionado e muito bem analisado! Há quem acredite que os sonhos também podem trazer mensagens do futuro, são os sonhos premunitórios que os místicos e religiosos defendem. Yung postulou sobre o Inconsciente Coletivo e a possibilidade de estarmos conectados como um todo...Freud cortou relações com ele. 
            Se você nunca acordasse de um sonho saberia a diferença? Conseguiria distinguir sua imagem no espelho de sua própria pessoa, ou melhor, de seus pedaços? Esse é o pesadelo vivido pelo psicótico. Enquanto os neuróticos sonham com o recalcado pela introjeção do Nome do Pai, com o que a intervenção na relação mãe/bebê criou, ou seja, o trauma da castração e suas consequências de entrada na civilização, o psicótico delira. Seus delírios são justamente as consequências da foraclusão do Nome do Pai, pois não houve a separação do relacionamento simbiótico entre mãe e bebê, não havendo castração, não há trauma para recalcar e sim para projetar no mundo real. Enquanto o neurótico sonha em ser Cleópatra, o psicótico tem certeza que é a rainha do Egito. Enquanto o neurótico teme ser carrasco, o psicótico pode ser um. Já o perverso o escolhe ser...se quiser, afinal negou a Lei que conhece bem. Ele tudo pode naquele que o fortalece! Alguns até optam por serem um Homem de Deus...
                Qual seria o parâmetro em que a sociedade se apoia na atualidade para definir o que é a Lei, já que o Nome do Pai está em queda vertiginal?! E qual o parâmetro para distinguir a realidade da ilusão? Com tantos recursos para se viver na virtualidade a civilização, constituída da relação humana, está em queda.
                Vivemos em um mundo que nos rodeia de mentiras e nos oferece todo tipo de ilusão. A verdade absoluta sobre a vida ainda nos é um conceito desconhecido. Há uma diversidade enorme de filosofias e religiões que deixam o barroquismo da mente do homem e seu 3% de uso da capacidade cerebral  ainda mais confuso. Então parece natural a ideia do vago, da falta de coerência, da falta de explicações satisfatórias. Não adianta idolatrar a ciência para tamponar este furo, afinal a ciência também vive se contradizendo e os paradigmas de outrora já não satisfazem mais. 
                 Aceitamos a propaganda enganosa e consumimos as mais diversas porcarias e drogas que nos dão a falsa sensação de felicidade, ou ao menos a prometem. Até fica parecendo que a mentira e a ilusão não é algo tão ruim assim, afinal, acreditamos que precisamos da ilusão para sobreviver. Mas precisamos sim da fantasia. Nem somos tão diferentes assim quando se trata de fantasias, os neuróticos as tem, os psicóticos a acreditam e os perversos a realizam.
                 Você já encontrou seu próprio desejo? Entrou em contato com sua verdadeira angústia ou tem fingido tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente? É preciso se relacionar com o outro no mundo real para se encontrar desejo e angústia. No entanto cada vez mais a sociedade prefere a tela de seu computador, as relações vêm se liquifazendo e o mal estar tão necessário para se civilizar é evitado a todo custo.
                Viver em um mundo insólito, com  origem misteriosa, fim duvidoso, com uma história inventada e cheio de violência, trancar-se em um mundo virtual é uma auto-defesa para preservar o ego e recorrer ao mundo dos sonhos é mesmo preciso, pelo menos, até um certo ponto...
                   
              

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Considerações Psicanalíticas sobra a peça teatral As Criadas, de Jean Genet

         Jean Genet foi um grande escritor e autor de diversas peças teatrais, descoberto por Jean Cocteau e admirado por Jean Paul Sartre, que até escreveu um texto sobre ele intitulado "São Genet, Ator e Mártir", era a frente de seu tempo. Homossexual assumido, marginalizado, preso por diversos roubos, órfão, tinha tudo para ter se tornado nada! Mas era genial, ousado e culto! No final de sua vida lutou por diversas causas sociais.
       Definitivamente apreciar e compreender sua obra não é para qualquer um. Mas indico aos meus colegas psicólogos e psicanalistas a assistirem a peça teatral "As Criadas" inspirado no texto de Lacan sobre o crime das irmãs Papin.
O crime das irmãs Papin foi discutido por Lacan em sua tese de doutorado em Psiquiatria, datada de 1932: Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade. O crime teve grande repercussão na França e foi, posteriormente, retratado no filme Entre elas (1994), dirigido por Nancy Meckler. As irmãs Christine e Léa Papin (28 e 21 anos, respectivamente) trabalhavam na casa burguesa de um advogado, sua esposa e sua filha. Eram consideradas empregadas-modelo, mas não havia nenhum tipo de comunicação entre os patrões e as empregadas. As patroas eram muito rígidas, e as empregadas, consideradas misteriosas devido a seu silêncio e aos dias de descanso que passavam juntas trancadas em seu quarto.
        Certo dia, quando as patroas estavam ausentes, houve uma pane no circuito elétrico da casa, causado acidentalmente por uma das irmãs. Ao chegarem as patroas, cada uma das irmãs subjuga suas adversárias, arrancando-lhes, ainda em vida, os olhos da órbita, e as espancando. Munidas de objetos que tinham a seu redor (martelo, pichel de estanho, faca de cozinha) amassam os rostos da vítimas, deixando o sexo à mostra. Cortam suas nádegas e coxas profundamente, ensangüentam o corpo de uma com o sangue da outra. Após o ritual atroz, lavam todos os instrumentos, banham-se e deitam-se na cama nuas e abraçadas. Trocam as seguintes palavras: "Agora está tudo limpo!"
          Ontem tive a honra de assistir a releitura dessa obra de arte de Genet feita pela Cia. Teatral Confraria Tambor, de Minas Gerais na Mostra de Teatro de Anápolis. Eles passaram de forma espetacular a psicose das criadas, através da expressão corporal, desintegrada e deformada, risadas estridentes e delirantes, referências animalescas e frases como "não aguento mais essa minha imagem no espelho!". E sim, esta peça precisa ser interpretada por homens, pois as criadas, que foracluíram o Nome do Pai, acreditam-se um falo. Os momentos de nudez, meu caros anapolinos, são uma clara referência ao crime cometido pelas irmãs Papin, bem, fica claro para quem estuda psicose em Lacan, psicanalista francês que explicou com maestria esta estrutura psicológica.
          Essa é a magia do teatro, uma verdadeira arte, pois instiga reflexão e provoca a vontade de adquirir ainda mais cultura. Ler faz bem... estudar faz bem...impede as pessoas de fazerem comentários infelizes, por exemplo. Ah, um pouco de humildade também faz bem( referência ao acontecido durante o debate após a peça).
Adorei as críticas sociais e o tom de humor que eles acrescentaram á peça, mas a única crítica que faria é a respeito da barba por fazer de alguns atores. Jean Genet é mais andrógeno...aplaudo vocês terem fugido do óbvio do travestismo, e apesar da brilhante interpretação no permitir ver sim aquelas loucas mulheres trazidas a vida, da próxima vez, apenas façam a barba. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

PENTIMENTO


Sua imagem estará sangrando
Seu nome será apenas uma mancha
Seu sorriso será lua minguando
Enquanto a lembrança se desmancha
Sua voz estará apenas em meu pensamento
Seu retrato estará escondido por pentimento

Sua imagem estará desbotando
Seu nome escorrendo com o verniz
Tua voz será uma canção chorando
Que escrevi na calçada com giz
Seu toque foi meu arrebatamento
Seu retrato estará escondido em pentimento

O minueto que compusestes com minha tristeza
É agora a batida lenta de meu coração
Sepultada na tinta está aquela certeza
Pra mim só resta a inspiração
Fecho os olhos para ouvir a solidão da melodia
A dor de cada nota ecoa do olhar que ardia

E agora, nada ficou?!
Passo por você de cabeça baixa
Para que não veja em meus olhos a lembranças que restou
Todos os meus poemas escondo numa caixa
Pintei nossa imagem por cima em arrependimento

Mas esta se revela aos poucos em pentimento

domingo, 22 de junho de 2014

ESPELHO



Não sou espelho
Não reflito seu olhar
Quem estruturou seu aparelho
Foi a ausência da imagem especular

Estou cansada
De sempre ser considerada
O reflexo invertido
De seu coração pervertido

Resolvi na sua ausência
Também me ausentar
Não sou registro imagético
Para te completar

Muito menos estou em partes
Nem sou obra de arte
Para conseguir amarrar
Seu ego a se desintegrar

Do teu amor nem quero ser dona
Não sou risperidona
Para você me tomar
Com um beijo me inalar

Não sou espelho
Para você se projetar
Não ficarei de joelhos
Para você me dicotomizar

Sou mulher
Você não consegue lidar
Nem se quiser

Com o meu olhar

Carla Berti Bonesso

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Alguém



Vejo alguns culpando a cultura, a criação, aos filmes de Hollywood pelo desencontro amoroso... Eu culpo o Depeche Mode! Por ter feito uma canção tão bela sobre um amor idealizado que nunca existirá na realidade...
Será que não existe mesmo? Se todos dizemos que procuramos amor verdadeiro, sincero, onde a cumplicidade, o diálogo, a compreensão e o compromisso imperam, o que está errado com este discurso? Porque não conseguimos nos relacionar com o outro em sua totalidade? As pessoas compartimentalizam as relações, e culpam somente ao outro pelos seus fracassos. Devemos culpar a nós mesmos, os nossos sintomas, que nos assaltam no momento oportuno e inoportuno com um timing tão perfeito como as piadas de Jim Carrey transformando nossa vida num filme amador, de baixo orçamento, com um péssimo diretor - o nosso Super Ego- no gênero da comédia/dramática.
Mas talvez todo o sofrimento valha a pena, por aqueles raros momentos onde os olhares se encontraram e os corpos falaram...talvez querer esse alguém da música do Depeche é querer do outro algo que nem agente mesmo tenha para dar. Se pergunte sempre: o que eu quero do outro é coerente com o que eu tenho a oferecer? Existe a possibilidade de comunicação entre eu e aquela pessoa que desejo. Keep it real....
http://www.youtube.com/watch?v=chXF4MgbWzE