sexta-feira, 18 de julho de 2014

Considerações Psicanalíticas sobra a peça teatral As Criadas, de Jean Genet

         Jean Genet foi um grande escritor e autor de diversas peças teatrais, descoberto por Jean Cocteau e admirado por Jean Paul Sartre, que até escreveu um texto sobre ele intitulado "São Genet, Ator e Mártir", era a frente de seu tempo. Homossexual assumido, marginalizado, preso por diversos roubos, órfão, tinha tudo para ter se tornado nada! Mas era genial, ousado e culto! No final de sua vida lutou por diversas causas sociais.
       Definitivamente apreciar e compreender sua obra não é para qualquer um. Mas indico aos meus colegas psicólogos e psicanalistas a assistirem a peça teatral "As Criadas" inspirado no texto de Lacan sobre o crime das irmãs Papin.
O crime das irmãs Papin foi discutido por Lacan em sua tese de doutorado em Psiquiatria, datada de 1932: Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade. O crime teve grande repercussão na França e foi, posteriormente, retratado no filme Entre elas (1994), dirigido por Nancy Meckler. As irmãs Christine e Léa Papin (28 e 21 anos, respectivamente) trabalhavam na casa burguesa de um advogado, sua esposa e sua filha. Eram consideradas empregadas-modelo, mas não havia nenhum tipo de comunicação entre os patrões e as empregadas. As patroas eram muito rígidas, e as empregadas, consideradas misteriosas devido a seu silêncio e aos dias de descanso que passavam juntas trancadas em seu quarto.
        Certo dia, quando as patroas estavam ausentes, houve uma pane no circuito elétrico da casa, causado acidentalmente por uma das irmãs. Ao chegarem as patroas, cada uma das irmãs subjuga suas adversárias, arrancando-lhes, ainda em vida, os olhos da órbita, e as espancando. Munidas de objetos que tinham a seu redor (martelo, pichel de estanho, faca de cozinha) amassam os rostos da vítimas, deixando o sexo à mostra. Cortam suas nádegas e coxas profundamente, ensangüentam o corpo de uma com o sangue da outra. Após o ritual atroz, lavam todos os instrumentos, banham-se e deitam-se na cama nuas e abraçadas. Trocam as seguintes palavras: "Agora está tudo limpo!"
          Ontem tive a honra de assistir a releitura dessa obra de arte de Genet feita pela Cia. Teatral Confraria Tambor, de Minas Gerais na Mostra de Teatro de Anápolis. Eles passaram de forma espetacular a psicose das criadas, através da expressão corporal, desintegrada e deformada, risadas estridentes e delirantes, referências animalescas e frases como "não aguento mais essa minha imagem no espelho!". E sim, esta peça precisa ser interpretada por homens, pois as criadas, que foracluíram o Nome do Pai, acreditam-se um falo. Os momentos de nudez, meu caros anapolinos, são uma clara referência ao crime cometido pelas irmãs Papin, bem, fica claro para quem estuda psicose em Lacan, psicanalista francês que explicou com maestria esta estrutura psicológica.
          Essa é a magia do teatro, uma verdadeira arte, pois instiga reflexão e provoca a vontade de adquirir ainda mais cultura. Ler faz bem... estudar faz bem...impede as pessoas de fazerem comentários infelizes, por exemplo. Ah, um pouco de humildade também faz bem( referência ao acontecido durante o debate após a peça).
Adorei as críticas sociais e o tom de humor que eles acrescentaram á peça, mas a única crítica que faria é a respeito da barba por fazer de alguns atores. Jean Genet é mais andrógeno...aplaudo vocês terem fugido do óbvio do travestismo, e apesar da brilhante interpretação no permitir ver sim aquelas loucas mulheres trazidas a vida, da próxima vez, apenas façam a barba. 

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